segunda-feira, 28 de março de 2011

Quando a muda muda mudou

O amarelo avermelhado
outrora verde dourado
fazia desbotado o gramado
típico de cerrado
tipicamente ralo.
Solo cerrado,
improvável maternidade
mas paradoxal berço
de uma muda muda
nem metade, nem um terço
vestida; desnuda.
Não fora plantada,
nem do acaso gerada, ela sabia.
Sempre calada, à discrição habituada,
assistia, aprendia.
Estava presa, possível presa,
zelava, fugia e se refugiava,
em própria defesa,
e com o tempo que passava,
essa frágil beleza
como num encanto,
cresceu tanto quanto
jamais se imaginara.
Mostrou-se a sua cara,
mais que rara, clara,
cara.
Em alto e bom som,
sem falhar no tom,
com seu canto,
saiu do seu canto
pra ir a todo canto.
Sua raiz não o contradiz,
pois após ser aprendiz,
quer dar fruto,
minuto a minuto,
mostrar o produto
e transmitir seu saber,
apresentar a vida
pelo seu florescer,
e a Verdade lida
provada e sentida
não totalmente entendida
em cada semente caída
evidente medida do amadurecer.

A muda muda mudou,
foi transformada,
não por si só se transformou.
Já arraigada, agora preparada,
é árvore frondosa, folhosa
por falar ansiosa
da seiva preciosa
que lhe fez o que hoje é...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Nove mais nove



O dia chegou. E, na verdade, ainda era noite. Depois de momentos de adrenalina como resgatar um telefone e ganhar uma máscara facial de bolo de chocolate, parecia que o auge de tudo ainda não havia chegado. Meio egocêntrico - eu sei e admito - pensar que o mundo seria diferente quando desse meia-noite. Mas essa talvez seja a expectativa natural de alguém que está prestes a atingir a maioridade...
Chegou aquele minuto, o exato segundo em que algumas pessoas apertaram um "enter" ou clicaram num "postar recado", ou até mesmo começaram a cantar. E, engraçado... foi um minuto de alegria indescritível, de sorriso aparentemente eterno para mim. Leveza, vitória, parecia o Finalmente (mas jamais o Até-Que-Enfim).
Senti os abraços: os cheios de afeto, os carinhosos, os recheados dos melhores votos e os "simpatiquinhos" também. Ah! E os "quebra-costelas", é claro - meus preferidos! Digo que quase podia ver na minha frente toda a alegria que sentia, como se não coubesse no meu peito e vazasse pra todo lado. E não vazava num fiozinho ralo, mas com força, desgovernadamente, incontrolável como o riso na boca e no olhar num momento como esse.
Quando aquela euforia passou e os ânimos se acalmaram foi que eu percebi que ainda era a mesma. Era a Laura, meio branca, às vezes vermelha, que gosta de verde, de cebola, sorvete e bolacha de morango. A Laura que ama cartas, a que quer ter um relógio de pêndulo e que ama história, português, inglês, espanhol e francês. A Laura que quer servir com tudo que é e apesar de tudo que é. Era eu.
E ao mesmo tempo era uma Laura um pouquinho mais velha, que tinha se tocado de que está crescendo de verdade. E que está deixando de lado a síndrome de Peter Pan, porque realmente SONHA com o que a espera. Cheia de expectativas e, principalmente, crente nas promessas dAquele que dirige a minha vida, não tenho mais medo de fazer aniversários e ganhar de presente maiores responsabilidades. Vou continuar vivendo, buscando a minha felicidade e a de quem me cerca, sendo que talvez a primeira eu encontre na segunda também. Vou continuar lutando, empenhando-me em levar o Reino pra onde eu for e mostrar a razão de eu ter chegado nos nove mais nove, mais dez, mais onze e assim por diante.
Eu tinha medo de qualquer mudança radical na minha vida, de me distanciar de pessoas queridas, de perder coisas valiosas, de não conseguir cumprir com minhas obrigações. Mas NÃO! Quem está no controle de tudo isso não sou eu, é alguém mehor. E as transformações serão positivas, não tirarão da minha pessoa o que há de bom. Estou feliz em completar mais um ano de vida, pois isso significa que coisas lindas estão se aproximando. E não é o tempo que vai desfazer a minha essência e tudo aquilo que foi construído em mim. Ele me trará amadurecimento, novas experiências, mais histórias pra contar, etc. Mas quem eu sou fica. Continuo amando bonecas, cores, agendas, poemas, abraços e pessoas.
Sou a Laura mais velha, mas a velha Laura continuo sendo...

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Lago Laranja




Eu me sentia envolta num arco-íris confuso, em que todas as cores se misturavam, mas sem formar o branco. Formavam uma cor que nem era cor. Tocava um rock pesado e eu era incapaz de distinguir vozes, instrumentos e batidas. Não era mais música; passara a ser um ruído, um barulho insuportável que me doía os ouvidos como um estranho a invadir minha casa. Eu não tinha em mente a menor ideia de onde estava e do que se passava ao meu redor... Onde estavam todos os outros? Onde ficaram todas as minhas decisões? Eu andara tão bem até então...
Segurei minha cabeça com as duas mãos e minha testa enrugada e meus olhos quase fechados ilustravam minha irritação. Eu parecia estar presa ali, inapta a livrar-me sozinha daquela aflição. Era uma sensação pior do que quando arranham a lousa ou rangem os dentes com força. Mãos invisíveis puxavam meu cabelo pra todos os lados e cutucavam meu ombro incansavelmente. Apesar do barulho, eu escutava vozes vindas de mil lugares diferentes, todas chamando meu nome, tentando me atrair pra perto delas. Mas eu tentei me manter imóvel embora alguma força esquisita me chacoalhasse constantemente.
Eu me senti a mais impotente das criaturas na face de qualquer planeta ou qualquer outro tipo de corpo jogado por aí no universo e que tenha uma face... Definitivamente aquela situação estava fora do meu controle.

Quando estava prestes a cruzar a linha em que começa o desespero, de repente tudo se acalmou.

O barulho foi embora, substituído por canto de passarinhos. Um cheiro de terra úmida preencheu o ar. A inquietude passou. Estranhando essa repentina e radical mudança, abri os olhos vagarosamente, sem fazer movimentos bruscos, para tentar entender o ocorrido. Eu me encontrava numa canoa, flutuando num lago laranja cuja superfície era plena calmaria. Parecia cena de filme; beirando o estático. Era quase o irreal, mas aquela paz me contagiou de forma tão intensa que não resisti e acreditei nela... me entreguei a ela. Fui inundada mesmo sem que a água se mexesse, e entendi que por mais que às vezes a maré volte a baixar, posso me sentir mergulhando nela toda vez que desejar ou precisar.


Provei.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Perspectiva

A mudança de ano, como li uma vez, é uma invenção genial. Traz consigo aquele espírito de união entre as pessoas, de caridade. Renova as esperanças de todos na possibilidade de um futuro melhor, de um ano de realizações e boas surpresas. Todos fazendo votos de um novo ano com muitas felicidades, uns para os outros. É bonito, sim.
Por outro lado, nesse finzinho, o que eu mais penso é como foi o ano que se passou. Não estou falando de pensar "nossa, passou rápido, né?" mas sim de um análise um tanto mais aprofundada. O famoso "balanço geral de fim de ano". Soa bem clichê, mas devido às minhas manias ... saudosistas - digamos assim - acabei aderindo a essa prática. E, sabe, é muito bom, de certa forma. Eu digo "de certa forma", porque também traz o sério risco de um sentimento de nostalgia (por mais recente que seja), um medo de abandonar esses tempos bons...
Mas como não sou a Sininho, fada do Peter Pan, posso dividir o espaço dessa saudade com o da alegria de olhar pra trás e relembrar dos melhores momentos. Foram tantos...
* E nisso eu vejo ainda mais evidentemente o inestimável valor da Charlie (meu diário). Ela me ajuda a lembrar de TANTA COISA! *
Não deixe de lembrar dos amigos que conheceu nesse ano de 2010. Nem daqueles com quem brigou e fez as pazes. Não deixe de lembrar dos momentos mais felizes, nem dos mais tristes, nem dos mais engraçados, nem dos mais estressantes. Não deixe de recordar os momentos de cansaço, trabalho, estudo e sono... nem dos momentos de festa, música, conversa, etc.
Não se esqueça das piadas sem graça que seus amigos contaram (cof cof), dos comentários inoportunos de outros (cof cof), dos foras que te deram, de todos os episódios que na hora foram tensos mas agora te fazem rir...
Não se esqueça de quando aquele amigo que você não esperava te ajudou numa hora decisiva e difícil, nem de quando você começou a conversar com uma pessoa totalmente repentinamente e sem motivos.
Não se esqueça de quando sorriram pra você. Não esqueça de quando você sorriu pra si mesmo.
E baseado nisso tudo, sonhe com o Novo Ano. Não faça uma escala de horários ou eventos para esses dias, mas SONHE com eles, espere com entusiasmo pelas surpresas que podem surgir no caminho. Não priorize horários, obrigações e prazos, apenas, por um momento, sonhe, fantasie. Hoje há uma preocupação tão grande quanto à criação de cronogramas detalhados, programações diárias previamente organizadas... Tudo parece tão mecanizado, tão pouco humano...
Planeje fazer mais amigos sem querer, planeje visitar as pessoas, planeje ser mais amigável, cumprimentar todos e ouvir-lhes olhando nos seus olhos. Eu diria... Planeje ser espontâneo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Minhas Pessoas

Sonhei com minhas pessoas essa noite.
Minhas pessoas sorriram para mim quando abri os olhos dos sonhos. (Existem os olhos de sonhar e o os olhos de viver, certo?)
Elas sorriram com os lábios e com as mãos que me abraçaram, uma a uma de maneira especial, todas juntas de forma inesquecível.
Eu sorri de volta, com o coração. Senti-me acomodada mas ao mesmo tempo, meu batimento acelerou. Engraçado!
E lindo. Lindo saber que minhas pessoas estavam ali novamente. Elas sempre estavam.
Era a percepção mais plena de que cada segundo é particularmente único, porque a cada vez que esse episódio acontecia, eu, lisonejada, me surpreendia como se fosse a primeira vez. E a cada dia esperava ansiosamente para que ele viesse a se repetir. Engraçado outra vez: eu já esperava, mas sempre era pega de surpresa!
Aiai... como amo as minhas pessoas!
Minhas pessoas, apesar de nem sempre me deixarem cuidar delas, o fazem para comigo. Tantas vezes não sei o quanto isso pode lhes custar... mas sou sempre grata, indubitavelmente.
Cativantes são pequenos gestos que a mim oferecem. Palavras, minutos, sorrisos e presentes tornam-se tesouros mais valiosos que qualquer baú cheio de ouro no fundo do mar. Cartas e fotografias eternizam esse encanto formidavelmente.
Minhas pessoas me escutam e me leem minunciosamente, esmiuçando cada detalhe, cada suspiro, cada reação. Gosto de fazer isso com elas também. Atenção é alimento indispensável.
Elas em mim depositam confiança e eu mais ainda o faço. Não temo que vejam minhas lágrimas e procuro enxugar as suas.
Também são aquelas pessoas que me dão motivos pra rir risadas de verdade, trazendo descontração quando crises de estresse, cansaço ou nervosismo são iminentes.
São aquelas que lutam ao meu lado, que dividem comigo seus escudos e atacam por mim com suas espadas. São pessoas que dividem meus fardos comigo, me estendem a mão para que me levante quando caio ou para me puxar de volta quando estou sem os pés no chão.
Não nego que às vezes sofro por causa delas, a sua ausência (em diversos sentidos) me fere, assim como pequenos atos que aos seus olhos não têm significado algum, mas que para mim são como facadas... Mas estranho seria se isso não acontecesse.. e até, de certa forma, isso me proporciona crescimento, e à amizade, fortalecimento.
Minhas pessoas sabem como eu sou, reconhecem minha tristeza, sabem como me consolar. Elas também sabem quando estou feliz, sabem quando brinco, sabem brincar, sabem do que gosto... sabem me deixar feliz de verdade!
Entre todas essas coisas, no entanto, o que mais quero que saibam é que as amo imensamente! Não espero que compreendam o quanto, sendo que nem eu mesma o sei, mas que conheçam essa verdade e que lhes seja possível senti-la!
Eu, de todo o meu coração, anseio vê-las felizes e procuro agir de modo que isso se concretize. Tento de todas as formas possíveis demonstrar o quanto me importo com elas, falando explicitamente ou deixando nas entrelinhas das minhas ações.
Desejo que saibam da minha disposição para ajudá-las e da minha inexplicável gratidão a elas e, acima de tudo, Àquele que me concedeu a honra de encontrá-las, conhecê-las e amá-las.
Quero que se lembrem eternamente, mesmo que o tempo nos distancie, mesmo que as circunstâncias não nos favoreçam, que sua marca é inapagável, tamanha a sua profundidade.
Elas me cativaram e me cativam; me encantam, me fazem brilhar os olhos...
...As minhas pessoas...!

sábado, 23 de outubro de 2010

O véu de sete metros

Não me esforcei muito, mas parece que cavoquei bem fundo na terra e encontrei um baú de tesouros nessa tarde.
Lembrei-me de algo que marcou muito a minha infância... Na verdade, eu não tinha esquecido, só não era mais tão nítido...
Eu sempre me recordei de ouvir meu avô cantando pra mim, quando eu tinha por volta dos meus 3 anos, uma musiquinha exatamente assim: "Quem quer casar com a Senhora Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha?"
Nunca me esqueci de que havia um rato que caíra na panela de feijão também...
Mas... não conseguia entender qual era o sentido dessas lembranças...
Pra ser sincera, ainda não consegui... mas encontrei uma coisa preciosíssima!
Descobri de onde vinham essas lembranças sobre uma baratinha e um rato e uma panela de feijão.
E descobri também porque, logo no comecinho da minha infância, eu secretamente queria me casar usando um véu de sete metros.
É. É isso mesmo. Era segredo, mas agora vocês também sabem... E se quiserem saber o motivo, assistam:

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Eu e os trens outra vez.



Há alguns dias fui visitar a estação e o museu ferroviário da minha cidade. Simples, pequenos, nada como uma cidade interiorana com um único shopping (até agora, né?). E como me deliciei!
Não resisti e tirei umas (milhares, segundo a S) fotos por lá. Mas, poxa, era impossível não fazê-lo e, tenho certeza, você concordaria se fosse eu. (Ah, jura???!!)(Sério, meeu!)(Poxa, GRANDE revelação!)
Sei que, me intrometendo com meus átomos do século XXI (calma, eu sei que não é assim que funciona, mas vamos lá, isso é um texto de blog e não um doutorado em Química) e meu celular um tanto moderno, de certa forma, pequei contra o espírito de coisa-antiga que pairava naquele ar fresco, o ar que na minha cabeça era empoeirado e tinha aquele efeito sépia. Mas o encanto era grande a ponto de custar caro manter-me tangenciando tudo aquilo apenas com os olhos. Eu precisava sonhar mais do que com a cabeça e o coração; queria abusar do tato, já que naquela hora isso me era permitido.
Ah, eu o fiz. Entrei em cada vagão, toquei nas paredes, sentei em todos os bancos. Admirando os desenhos talhados na madeira, vendo com os dedos todo o trabalho dedicado naquela construção, senti a manifestação dos "olhos brilhantes" (vou usar sempre essa expressão, ok, minha querida E?). Fascinante imaginar os viajantes de primeira classe almoçando dentro dos vagões; praticamente pude ouvir o som dos mil talheres encontrando a porcelana dos pratos. Imaginei homens de bigodes com seus chapéus e maletas de couro marrom, homens de negócios. Imaginei meninos com boinas e meias até os joelhos. Mulheres e meninas com vestidos cheios de rendas e babados, cabelos encaracolados como os de bonecas.
Trens me lembram uma época mais antiga, os posiciono sempre naquele cenário em que eles geralmente são colocados nos filmes, sabe? Lembram-me preto e branco; lembram-me pérolas e chapéus com penas. Não me pergunte o porquê.
Quaisquer lembranças desse passado que não pude presenciar são incríveis para mim, pois sei que jamais terei a oportunidade de vivê-lo. O futuro, ah o futuro ainda me espera. Mas o passado não volta e o mistério que ele cria em mim me incomoda muito ao mesmo tempo em que me emociona.
Cartas amareladas, músicas típicas antigas (daquelas em cujas gravações é possível ouvir uns estalos vez ou outra), fotos desbotadas, roupas,... quaisquer vestígios desse tempo me fazem viajar e encontrar na minha imaginação coisas bonitas como enredos de histórias de amor bem românticas.
Vi um telefone muito antigo, bem diferente, mas BEEEEM diferente MESMO do que o que temos hoje, vi máquinas de escrever, máquinas de calcular (que não haviam sido batizadas de calculadoras ainda), máquinas pra digitar em código morse. Vi vários relógios enormes bem velhos, vi uma escrivaninha deslumbrante, cheia de pequenas gavetas.
Mas mais do que isso, algo que não posso exprimir em palavras me tomou naqueles momentos, como se eu pudesse compartilhar daquela realidade e não só de impressões sobre ela, como se flashes do que se passou ali há décadas se repetissem na minha presença.
Nunca vou me esquecer de nada daquilo, principalmente dos desenhos talhados na madeira das paredes e do teto dos vagões.
É... Preciso mesmo de uma viagem de trem. Com uma bela paisagem, de preferência.
Ah, e peço licença, mas não dispenso uma boa câmera fotográfica!